Quadrinhos são a mistura de ilustração e texto, correto? E o que acontece quando o desenho some, e fica só o texto? Uma piada em atos? Uma crônica em balões? O projeto de Marcelo Saravá é tão profundo e minimalista que merece uma dezena de estudos, pelo menos. Roteirista, ele já trabalhou em televisão, fez produção de vídeos e escreveu peças de teatro. Até que desejou, desesperadamente, entrar nesse mundo dos quadrinhos. Surgiu a idéia de compor as tiras sem ilustrações. Já foram publicadas mais de mil e trezentas. Duzentas foram parar no livro '1000 Palavras – Tiras 100 Desenho'. E as aplicações educacionais que podem surgir do uso desses quadrinhos são muitas – discussão de roteiro, sugestão de desenhos, redação complementar. Só é preciso abrir o pensamento – o que Marcelo ainda não tem conseguido fazer na cabeça de todos os colegas. “Meu trabalho é combatido por gente que não considera o que eu faço quadrinhos”. Eles estão errados, Marcelo. Leia a entrevista:.
DEUS NO GIBI - Como surgiu essa proposta de fazer tiras sem desenhos?
MARCELO SARAVÁ- Foi sem querer, nada pensado. Em 2007 eu estava frustrado com minha carreira; meus colegas já tinham curta-metragens, séries de TV e de web e trabalhos afins em seus portfólios. Eu, nem empregado na área estava. Queria entrar na área de quadrinhos, mas sem depender de desenhistas para concretizar minhas idéias. Na época houve uma matéria na Folha de S. Paulo sobre webcomics com alguns sites de tiras minimalistas, como Dinosaur Comics e A Softer World, minha maior referência. Descobri um software amador chamado Comic Life, feito basicamente para as pessoas pegarem suas fotos de família, colocar balões com diálogos engraçadinhos, fazer HQ's bonitinhas. O programa é muito limitado, e resolvi que fosse como fosse o estilo de quadrinhos que eu fizesse - eu não fazia ainda ideia - eu assumiria tal limitação. Comecei a experimentar colagens, mas nada me satisfazia. E, de repente, o estalo. Pensei, e se? Resolvi pisar na jaca.
"A força da condensação e a expressiva e vigorosa maneira do artista de imaginar personagens deram à narrativa em quadrinhos um sentido de vida mais à flor da pele" José Lins do Rego